
Te falar que eu curto demais esse lance de música eletrônica, mas o que eu ando reparando ultimamente não é uma coisa muito apreciável, pelo menos pra mim. Vou falar um pouco das raves.
As raves, pra quem não sabe, são eventos de extremo investimento onde a galera vai pra curtir música eletrônica (principalmente, mas vão pra curtir outras coisas também). E tipo, é BEM louco MESMO! As raves duram tempo muito maior que o estimado pra festas padrões, viram a noite, dias, e muita gente delira, parece não se cansar daquilo, dançam mesmo exaustos. É contagiante de tão psicodélico. O que eu venho obervando ultimamente é que esse espírito se esvaiu um pouco. Faz mais ou menos 1 ano e meio desde a última rave que eu fui, e parece que desde então muita coisa mudou. Pra começar, foi estipulado um tempo de duração por lei de 12 horas (se eu não me engano). Até aí tudo bem, muita gente chega depois do início e não fica até o final, mas nem é isso. O psytrance passou de uma nova cultura para uma nova moda, digamos assim. Todos dançam, todos participam, não vou na festa que não rolar trance, a próxima pvt é sábado que vem e custa 30 reais antecipado. Você não vai? Vai ser A FESTA cara!!
O bagulho já ficou tão intenso que existem até regras estipuladas. Se você não dançar de tal jeito nem fizer um rebolation irado e psicodélico, quer dizer que você é novo no ramo. Não entende do esquema, não entende o som, não tem a sensibilidade de sentir as vibrações, não entende o pirulito na boca de cada um, o significado de ''balinha'' e ''fritar'', enfim, não entende porra nenhuma porque é um bundão que tá começando agora. Isso é decepcionante cara. Quando fui na minha primeira rave, eu me senti num mundo extremamente diferente e alienígena. Cada pessoa interpretava o som de um jeito, cada pessoa curtia de um jeito, cada pessoa dançava diferente! As tendas, as cores, tudo era tão novo e estimulante. Ontem eu passei pela festa de um santo que eu desconheço que tem todo ano aqui onde eu moro. Essa festa é típica de rua, com barraquinhas, tendas de som, essas coisas. E é claro, não podia faltar o trance. Quando passei por lá, eu vi tudo ao contrário do que eu citei. Todos eram iguais. Todos vestiam igual. Todos dançavam igual. O trance virou um tédio.
O que eu achava mais interessante era que, sim, as raves sempre foram um ambiente pra alta sociedade, pra elite. Mas independente disso, era um lugar libertino. Muita gente se produzia, muita gente ia só de bermuda e chinelo, e todos se misturavam por lá. Uma válvula de escape, onde a pessoa vai pensando ''hoje eu quero me divertir'' e se diverte, esquece os limites do corpo e da auto-imagem. As pessoas curtiam pra valer. Isso era legal. Era legal quando ninguém se importava em posar pra fotos que vão pro orkut (tá certo que era legal ser abordado pelos fotógrafos de sites de plantão, e hoje em dia o número deles deve ter triplicado), era legal ver a galera dormindo no gramado pra poder descansar e curtir mais. O trance tinha um espaço mais ''underground'', e isso dentro da elite! Era um cenário mais seleto, porque nem todos gostavam. Eu conheço muita gente da alta sociedade que detestava a batida irritante da música eletrônica, e que preferia mil vezes o funk (outra onda cultural que foi elitezada) e que hoje, tão aí. Pirulitinhos na boca e textos no orkut sobre ''deixar o psy fluir na mente''. E também muita gente que veio de baixo que curtia o som eletrônico, mesmo as raves custando tão caro, mesmo o som não sendo tão acessível. Hoje fica mais fácil, porque em qualquer esquina, rola o trance.
É, galera. Perdeu a graça. A música eletrônica continua, pra mim, boa como sempre, mas o ambiente perdeu a graça. Se for pra ficar de baixo de uma tenda agindo como palhaço de circo num número sincronizado, eu prefiro comprar um pirulito na padaria mais próxima e chupar em casa, perto das minhas caixinhas de som.
