O andarilho e o poeta sempre foram muito amigos. Na juventude, quando se conheceram, gostavam de jogar conversa fora e trocar parlendas sem sentido, em baixo da luz da lua, ou até mesmo na própria, onde podiam deslumbrar a magnífica visão do planeta Terra, pequeno como uma criança que sempre foi.
O poeta vivia da arte. Inspirava-se repentinamente e entrava em contato com seu amigo andarilho para que o acompanha-se em mais uma loucura coletiva. Alimentava a alma do amigo. Uma alma desnutrida, motivada por um propósito inalcançável, pois assim ditava a sua essência. Assim ditava a essência humana. Alcançar o inalcançável, atingir o nunca. Frustração. Aquilo que sempre buscava, aquilo que ele encontrava em abundância no amigo como diamantes de papel que, se garimpados, desmanchariam. Eram mais bonitos intocados.
O andarilho não tinha lar. Sua casa era o horizonte, o lugar onde ele jamais chegaria, mutável conforme a caminhada. Um lugar lúdico, justamente o que lhe tornava belo. O fantasioso. Assim como o poeta, a arte se fazia presente diariamente em seu cotidiano de cenas urbanas, em fumaça de cigarro, em meio copos de cachaça, em dióxido de carbono. Era engraçado como que, cada vez que caía bêbado, sentia uma sufocante vontade de beber o chocolate quente que seu amigo sabia preparar. Só ele fazia igual. Só ele lhe dava a sensação de estar em casa.
Mais um trovão e eles acordaram. O andarilho, do outro lado do mundo, só via neve por uma janela que não era dele. O poeta via a chuva, ouvia o barulho de pedregulhos torrenciais tocando o vidro de sua janela. Levantou-se e foi em direção à cozinha.
Naquela noite, só um deles tomou chocolate quente. O outro ficou só na sufocante vontade, e logo voltou a dormir. E sonhar.
domingo, 29 de junho de 2008
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S2
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